Ao acordar

Adormeço sempre que o despertador toca. Acordo de supetão com as virilhas transpiradas, visto as calças com cinco ou seis dias de uso, meto uma lata de atum e uma de milho na mochila e saio a correr para a estrada, que é onde eu moro. À beira da estrada. Se tiver sorte apanho o autocarro, caso contrário vou a pé pela via rápida com os condutores matinais a apitar-me e a fazer-me sinais feios. Os filhos no banco de trás, olham-me com pena e repúdio. Chego transpirado e ofegante ao comboio e sou sempre o último a entrar. Só há lugar para mim ao pé dos trabalhadores que se sentam no vão da escada. Geralmente são negros, ex-presidiários com chinelos da adidas e gorro escuro, no verão. Seguimos juntos por cima do rio tejo a olhar o rio e o horizonte, a caminho de lisboa. Uns sonham, eu geralmente sonho muito. Mais do que eles. O dia na organização é humilhante. Pedem-me para fazer as coisas mais escabrosas e as mulheres fogem de mim ao almoço. Mudo garrafões de água, mudo o papel à impressora, limpo e organizo. Quando saio, depois da hora estipulada, vejo o presidente da organização a entrar num jaguar. É um homem culto com óculos de aros coloridos e o escritório dele é o mais bem iluminado do edifício. Parece um avô simpático que se esquece de pagar bons salários. E é impossível odiá-lo por isso, pois é simpático e idoso. No fim do dia costumo jantar um croissant na estação do metro da alameda. Juntamente comigo está um amigo. Um tipo que compra às dez e às vinte raspadinhas. Sentamo-nos e vamos raspando, expectantes. Ele cheira a óleo, mas é um bom amigo. O meu melhor amigo. Por nós passam muitas pessoas. Mas eu sonho muito. Sonho mais que toda a gente. No fim, nunca nos sai nada. Despeço-me dele e volto a apanhar o comboio, sentado no vão da escada ou apertado contra as portas da carruagem. Mas eu sonho mais que eles.

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Comboio

Intercidades. Depois da sugestão no intercomunicador, dirijo-me à carruagem 88. Caminho aos tropeções ao longo de duas carruagens. Reparo no apeadeiro perto de Santarém e na forma como os asiáticos se sentam a dormitar nas viagens de comboio. Quando chego à cafetaria, peço um café e um donut a um empregado de ar indolente, entretido a ler o jornal desportivo. Um inglês de óculos escuros e chapéu dos New york Yankees observa-me enquanto eu me sento na mesa corrida, em frente à janela. O meu sentimento de nostalgia é corrompido pela porta da entrada, que vai a batendo descontroladamente à medida que a carruagem trepida e se inclina. Reparo no leve aroma a urina que paira no ar estagnado. O empregado apático vai mandando ao ar alguns impropérios. Quando o contraste no reflexo do vidro permite, vejo o meu rosto e reparo que nem a barba fiz. Dois meses de barba descontrolada, pensei.

Um grupo muito macabro

Sou honesto. O grupo social mais macabro do mundo é aquele que está por dentro das lentes de máquinas fotográficas e tem como hobby tirar fotografias a peixes debaixo de água. São pessoas que geralmente não se preocupam com o cabelo. As pontas parecem de palha espigada e os óculos estão sempre desalinhados. Geralmente são pálidos e falsamente frágeis. De rosto indefinido e olhos sinistros. Estão genericamente bem posicionados na escala social. CEO’s de empresas não criativas, administradores e diretores financeiros, diria. O discurso deles é esquemático, são inteligentes e bem informados. Nunca oferecem café e raramente nos olham diretamente nos olhos. Há sempre um desconforto quando puxo da mão para os cumprimentar. Este último disse-me que tinha mais de 20 lentes em casa, daquelas caras. Senti que me mentia e não tinha mulher nem filhos. Quando se foi embora no audi topo gama, fiquei a pensar que ia para uma daquelas torres anónimas na amadora. Depois de alimentar os peixes no aquário gigante, preparava uma sandes de fiambre e dirigia-se ao último quarto da casa. Abria a porta devagar e pousava o pires da vista alegre no chão. Depois fechava a porta e ia para a sala, ver os peixes a andar de um lado para o outro.

Condescender

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Não gosto de condescender. O sr. joão pagou-me uma cerveja e contou-me umas coisas. Não condescendi. Não me espantou os 15 anos passados na pedreira dos húngaros e mais uma dezena de peripécias e passagens por bairros de lata. Foi honesto e mostrou-se grato por ainda me poder pagar uma cerveja e conseguir rir. Rir de si e rir da vida. Isso espantou-me. Há pessoas que se entregam à deriva quando as coisas estão mal, deixam-se levar. Há outras que explodem, que lutam, que agilizam. E há o sr. joão que vai levando, levando, levando, levando e vai-se levantando, levantando, levantando, levantando. Sem perder a postura digna que um sorriso transmite.

A esperança

Aqui há muitos anos o bisnagas estava grávido de esperanças e tinha um plano. Andava a dar duro no casino. Costumava beber uma, duas, três, quatro, cinco e seis granadas naquele balcão visualmente colorido do terceiro andar do casino. Eram noites pesadas mas cheias de amanhãs onde o bisnagas ficava a ver aquela bola a rodar na roleta até não ter dinheiro. Depois virava-se para mim e pedia-me umas notas. Voltávamos ao balcão para malharmos mais umas e ele aproveitava para contar-me, uma vez mais, sobre o esquema. Os esquemas, as promessas, as jogadas, a noite bacana, os cús bacanos que por ali passavam e um dia haveriam de ser nossos. No fim, saíamos derrotados e desfalcados do casino. Sem cú, sem dinheiro, mas com esperança. A esperança do bisnagas. Rumávamos ao cais do sodré para comer um kebab gorduroso na bernardino costa, onde o bisnagas costumava discutir com os empregados sobre números e esquemas de jogo. Esses empregados, também tinham um plano. O bisnagas costumava prometer-me a pés juntos que para a semana é que era. Que metesse os olhos nos indianos, que hoje estavam ali a servir kebabs a bêbados e maltrapilhos, mas para a semana estariam a caminho de grandes festas onde estariam grandes cús em mini saia. Tudo nosso, nada neles, gritava-me. Depois a conversa ia-se tornando escapatória e o bisnagas cansava-se dos esquemas e dos planos. Entrava noutro modo. Um modo mais duro e sem complacência. Um modo predatório onde o lugar da esperança era ocupado pelo talento.

Kiev

Contou-me que tinha perdido o anel de diamante num táxi, em kiev. A angústia durou meses até receber uma mensagem do taxista. Ao mandar arranjar a viatura, o dono da viatura achou o anel. O desgraçado foi de imediato a uma ourivesaria e informou-se. O anel valia muito. Depois o taxista tentou extorquir-lhe um resgate elevado, muitos dólares acima do que ela estava disposta a pagar. Ela chorou, falou com amigos e ponderou falar com alguns amigos russos que partem pernas como quem vai beber café. Mas o taxista desapareceu de vista. Ela estava em lisboa, muito longe de kiev. Lembrou-se de falar com a empresa de táxis e a coisa correu bem, pois bloquearam os pedidos que o coitado do taxista recebia através da app. Pouco tempo depois recebeu uma mensagem do taxista, ia receber o anel. Nessa semana ela viajou até viena. Foi à ópera e disse-me que tinha visto tantos monhés e russos que já não reconhecia a cidade. Um amigo recolheu-lhe o anel em kiev e foi entregar-lho a viena. Veio feliz para portugal. Estava mesmo feliz e isto andava a preocupá-la. Preocupou-a durante meses, era um diamante caro e simbólico, disse-me. Esta semana decidiu celebrar a sorte com uma viagem à Toscania, uma espécie de lua-de-mel. Eu ouvi esta história enquanto metia m&ms na boca, calmamente e sem grande esforço para sorrir.