No verão

Era uma renda simbólica e financiada pela Gebalis mas os prédios eram de reduzida qualidade. Todos os meses tinha uma carta na minha caixa do correio com crianças em grupo a rir e integradas em projetos de cariz social ou a fazer atividades que eu nunca vi, com pessoas que nunca vi. Eram textos de propaganda com títulos e números redondos num verde ecológico para as pessoas que sabiam ler. As que não sabiam ler deitavam aquela treta fora juntamente com a renda e as restantes contas. Os prédios aqueciam demasiado no verão e para prejuízo nosso tínhamos de fechar as janelas durante a noite e durante o dia, porque as baratas subiam as paredes e entravam em casa. Eram daquelas gordas e imortais que assustavam os animais domésticos. Houve um verão que ainda se deram ao trabalho de fazer desinfestação mas o orçamento acabou e as pessoas acabaram por se resignar a deixar a janela fechada a partir de maio e junho e a câmara nunca mais lá voltou. Eu costumava molhar uma toalha e colocá-la sobre as costas durante a noite para aguentar o calor e depois do primeiro ano habituei-me às baratas, ratos, percevejos e até às pulgas. Mas as cartas da Gebalis a garantir-me que a vida era uma alegria sem fim e que naquele mês tinham reintegrado mais 100 famílias algures, é que me tiravam do sério, juro.

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