O Olho

Cruzei-me com uma africana de lenço na cabeça e num esguio momento vi-lhe um olho branco inconfundível. Foi na Rua da Palma, antes de assentar praça na esquina. Fui atrás dela, mas perdi-lhe o rasto algures entre o desterro e a benformoso. Em frente, no ramiro, as pessoas gritavam e amontoavam-se, algumas tiravam fotos com flash e exibiam-se como num prostíbulo. Vi ao longe o miudito chinês a correr, outra vez. Vinha de onde? Ia para onde? Corria de braços abertos e rodopiava sobre si mesmo. Tirei-lhe algumas fotos como sempre e quando me sentei para comer o kebab vi o polícia a observar-me, pelo canto do olho. Pousou a mão na pistola, ajeitou o boné e pediu um durum sem cebola, para levar. Sentado ao meu lado estava um alucinado a fazer um cigarro. Ia largando uns murmúrios. Por vezes olhava para mim, outras vezes gesticulava no ar. Vi o polícia de saco na mão a afastar-se da luz e a caminhar para as trevas. Dois crachás reluzentes na escuridão, depois três, quatro. Até que desapareceram todos. O maluquinho ao meu lado continuou e só hoje reparei que não há nenhuma foto em que o miúdo chinês esteja totalmente focado. Aparece sempre desfocado com um sorriso sinistro.

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