Velhice em lisboa

cam01081

Vai fazer dois anos que numa rua deserta encontrei um corpo estendido. Estava escondido entre dois carros numa passadeira com os olhos fechados. Tinha uma fratura exposta com o sangue já seco e até o acordarmos com festas no braço, julguei-o morto. Até o INEM chegar foi um suplício, pedir-lhe que ficasse connosco e que se mantivesse acordado. Outra luta agonizante com os enfermeiros do INEM foi achar-lhe as veias. Perdi a noção do tempo. Pedia-lhe que ficasse connosco pois ninguém sabia o nome dele. Íamos-lhe chamando “Luis”. Os enfermeiros desistiram de tapar o osso exposto por causa do vento e até arranjarem forma de o colocarem na maca foi uma luta. Para ele, para nós e para os enfermeiros. Julguei até ao último momento que se tratava de um atropelamento. Mas os enfermeiros explicaram que não era nenhum atropelamento, era um velho, apenas um velho. Foi quando percebi as pantufas ensanguentadas, o pijama velho e a barba de dois dias. A janela aberta num segundo andar assinava o desespero. Uma agonia esquecida pelo anonimato. Enfim, a velhice em lisboa.

Anúncios

7 thoughts on “Velhice em lisboa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s