A minha pequena casinha

Tive uma pequena barraca de tábuas toscas com um telhado de zinco suportado por tijolos e alguns pneus. Depois levantaram quatro paredes em tijolo e pintaram-nas de branco. Trocaram-me o telhado por chapa ondulada e para evitar as humidades forrou-se algumas paredes. Era uma casinha acolhedora sem divisões e enquanto não tive eletricidade nem wc ia tomando banho em alguidares e balneários públicos. Estive inscrito para uma família adotiva mas não fui aceite por falta de critérios (a ironia) e tive de me aguentar com os tupperwares da Casa Pia (que chegavam a casa esfriados) e o eterno amor da minha avó que na altura vivia num minúsculo e degradado andar na rua dos cavaleiros. A adolescência chegou em forma de inverno sentimental sem figuras familiares presentes e num português mal escrito em pequenos postais vindos de frança. Quando fui realojado num bairro social ganhei uma bolha de oxigénio e um grande sonho que infelizmente foi encolhendo até ter chegado outro inverno em forma de necessidade. Conheci a ausência de valores, a ausência de amor, a ausência de bens e a ausência de calor humano que me acompanhou numa longa e penosa jornada até à idade adulta.

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