O “doutor”

Chamam-lhe o “doutor” e fica sempre sentado na última mesa do canto no restaurante chinês “bairrada”. Nunca tira os óculos escuros que lhe cobrem uma boa parte do rosto e come sempre bife com batata frita. Traz apenas consigo uma bengala e quando termina de beber o café tira um telemóvel do bolso, digita um número e diz algo indistinto. Depois arreda a cadeira para trás e levanta-se. É quando a senhora xu (ou zu, ou chu ou chan) grita para a cozinha algo num mandarim muito antigo. O alvoroço das woks cessa e das entranhas da cozinha sai um velhote estrábico geralmente em chinelos e sem meias com um cigarro na boca que se apressa a pegar no braço do “doutor” para depois lentamente caminharem até à rua onde um táxi os espera. Depois há uma troca de palavras e só hoje, depois de anos e anos, percebi que o “doutor” fala mandarim antigo.

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