Liberdade

Ao pai do r. que cumpriu 15 anos e quando saiu o filho subiu à barra para mais 5 anos. Deu-se como culpado e trocou a própria liberdade pela do filho. Depois de 20 anos de reclusão manteve-se sentado numa pequena cadeira à porta dos projetos sociais. Vi o lento declínio com o inchaço dos membros a pesar-lhe na respiração. No verão mantinha o peito descoberto e várias vezes vi-lhe aquela tatuagem do henri charrière orgulhosamente estampada no peito. Depois veio o inverno e piorou, já quase não cumprimentava e o olhar tornou-se aquoso e distante. Insistiu em ficar sentado durante dias e noites naquela cadeira, só com uma manta para o frio e apenas coberto da chuva pela ombreira do prédio. Subitamente deixei de ver a cadeira e uns meses depois chegou a primavera acompanhada de breves notícias sobre a tímida recuperação económica do país. Há uns anos apanhei o filho dele noutros projetos sociais e numa longa e confidente conversa contou-me que o pai recusou-se a morrer em casa escondido e até ao fim manteve-se sentado à vista de todos.

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