17 milhões

Pelas minhas contas já devo ter visto mais de 17 milhões de pessoas ao longo da minha vida. Fui umas vezes ao norte e já visitei a minha tia na frança, mas a maior parte destas pessoas vi-as na área metropolitana de lisboa. Para um fulano pouco viajado e sem estudos como eu, é muito. Agora considerem que grande parte destas pessoas são a franja ou a marginalidade da sociedade portuguesa. Entre sorrisos arrastados, corpos deformados e espíritos partidos, há um rosto que se destaca. É um homem de idade indefinida, não sei bem se mendigo, se drogado ou se estudante de artes. Mas tem uma pele tisnada e uma barba corajosa como o fidel quando era novo. Nunca pede moeda, nunca está a fumar e nunca o vi a beber. Também nunca o vi acompanhado nem a ler. Nunca está pedrado e nunca vai a caminho. Encontro-o simplesmente sentado num lancil com o cabelo impecavelmente puxado atrás e uma pele de fazer inveja, sem rugas e sem cicatrizes. Não tem história, não tem dor, não tem memória. É incrível. Vejo-o às vezes e mesmo com o passar dos anos, nunca muda. Nunca. Não sou dessas coisas, mas hoje fiquei mesmo a pensar se não seria o meu anjo da guarda a observar-me de perto, camuflado e com umas grandes asas escondidas debaixo daquele casaco velho, no anonimato destes 17 milhões de almas.

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