Um trabalho como os outros

Estava descontraidamente deitada numa cama de casal. Uma luz baixa escondia as inúmeras rachas que desciam do tecto a meio caminho de um piso de madeira já gasto. Sob um aparador deteriorado, uma minúscula televisão emitia os sons da última novela do dia enquanto uma barata investigava prudentemente o frasco imediadamente ao lado. Duas moscas pertinentes descreviam pequenos círculos num ar impregnado de suor, curiosas sob a lâmpada, não davam tréguas a um silêncio taciturno.

Mantinha-se ligeiramente inclinada com as mamas descaídas apenas suportadas por um soutien grená excessivamente apertado. Umas meias de ligas negras expunham um excesso de carnes caracterizado por pequenas estrias e várias cicatrizes.

Uma almofada permanecia relativamente afastada de um telemóvel antigo. Ambos sob uma colcha  decorativa.

E isto era tudo. Suspensa neste ritual até receber uma chamada ou uma mensagem escrita a perguntar se estava tudo bem. Já por várias vezes fora assaltada. No fim do expediente, muitos negavam-se a pagar. Outros agarravam-lhe o pescoço ou apontavam-lhe uma faca de ponta e mola. Certa vez, resistiu a um encontrão e atirou-se a um quarentão sisudo que se recusava a pagar o preço justo. Apesar das pernas grossas, o homem dominou-a sem grande embaraço e acabou por dar-lhe uma forte pancada na cabeça com uma jarra de vidro, deixando-a inconsciente. Foi instantâneo. Acordou dois dias depois, com a senhoria a bater-lhe à porta. O pouco que amealhara de dinheiro tinha sido roubado, inclusive dois brincos de ouro que mantinha numa pequena caixa de metal, juntamente com preservativos e filtros de cigarro.

Agora enviava sempre uma mensagem à amiga de hora a hora para dar sinal de vida. Retirou todos os objetos do aparador e mantinha uma pequena faca de cozinha debaixo da almofada. Restava pouco de humanidade no quarto, exceto o grande corpo deitado na cama, pronto para ser trocado pela quantia certa de dinheiro.

Passavam cinco minutos depois da meia noite, quando recebeu a primeira chamada. Uma voz assustadiça e solitária do outro lado da linha fez-lhe duas perguntas. Ela respondeu “sim” e deixou claro o que fazia, como fazia e por quanto fazia. Seguiu-se um “ok” e desligou a chamada. De seguida desligou a televisão e levantou-se da cama. Da primeira gaveta do aparador retirou dois preservativos e duas pastilhas elásticas que meteu à boca. Ajustou o soutien e repuxou as meias. Contornou a cama e fechou a janela que se encontrava aberta. Depois confirmou que a faca estava debaixo da almofada.

O telemóvel tocou mais uma vez e ela dirigiu-se à porta. Antes de abrir, garantiu à amiga que estava tudo bem. Mudou o telemóvel para o silêncio e olhou pelo óculo da porta. Viu um homem franzino com um rosto macilento de cabelo comprido, quase a cobrir os olhos. Trazia um fato ridiculamente grande, de um cinzento desmaiado. Dir-se-ia que era um vendedor de seguros já fatigado. Hesitou por segundos e pensou em mandá-lo embora. Respirou fundo  e decidiu-se. Abriu a porta. Com um sorriso simulado disse “entra”. Recuou alguns passos e deitou-se sugestivamente na cama. O fulano fechou a porta atrás de si e avançou até ela com passos curtos. Estava inquieto. Ela sorriu mais uma vez e disse-lhe “senta-te aqui”. Ele sentou-se. Ela passou-lhe a mão pelo pescoço fino e acariciou-lhe o cabelo. O nervosismo dele foi desaparecendo à medida que ela lhe tocava.

Ele manteve-se quieto enquanto ela o despia. Primeiro os sapatos, depois as calças e por fim o blazer. Começou a desabotoar a camisa e reparou na hesitação dele. “o que se passa?”, perguntou-lhe. Como não obteve resposta imediata, continuou a desabotoar. Por fim ele estava nu e ela reparou nas duas grandes cicatrizes que lhe cobriam o peito. Na verdade, já tinha visto pior e disse-lhe “hey, não faz mal, não me assustam” enquanto se deitava e lhe guiava a mão até ao seio esquerdo.

Quando finalmente ele a penetrou, ela pensava noutra coisa. Achou, na verdade, que ele seria mudo ou atrasado. Ele ia soltando pequenos grunhidos, com os olhos muito abertos. O que começou com uma singularidade, foi-se tornando numa excêntrica estranheza. Ele agarrou com alguma brutalidade um dos seios, magoando-a. Arremetia com mais força e os grunhidos foram aumentando de volume, até se tornarem em rugidos desenfreados.

Foi nesse momento, de dúvida e precaução, que ela esticou o braço direito para a almofada. Ele continuava em cima dela a bombear e a bombear, à beira do descontrolo, prestes a atingir o clímax. Subitamente, ela espetou-lhe e a faca num flanco. Ele largou um grito mudo e os olhos mostraram-se confusos. Depois perfurou-o mais duas vezes e ainda com a faca espetada, empurrou-o. Ele tombou para o lado, mudo e incrédulo. Ela rebolou para fora da cama, garantindo o espaço de segurança. Estava acelerada e nervosa, mas sentia que tinha controlado a situação. Não demorou até ele deixar de dar sinais de vida.

Ela pegou no telemóvel e telefonou imediatamente à amiga. Por mero acaso, reparou que junto das calças espalhadas no chão, encontrava-se um cartão branco e uma pequena caixa preta de veludo. Sem retirar os olhos do corpo, virou o cartão. Leu o que estava escrito: CASA COMIGO. Ainda atordoada pelo que acabava de ler, pegou na pequena caixa e abriu-a. No interior, um anel de noivado com uma pedra preciosa apanhou-a desprevenida.

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