O meu livro

Era um pequeno escritório com as paredes totalmente cobertas de posters. Atrás de uma imponente secretária de mogno com várias torres de livros o editor permanecia sentado com os braços pousados. Fumava um cigarro sem princípio nem fim suspenso numa boca contraída com um bigode esquivo e aparado. Ia-me dizendo:

– tens de acreditar em ti – enquanto passava o dedo indicador pelo bigode – e eu acredito em ti, acho mesmo que tens talento.

Uma secreta satisfação brotava do meu corpo e um sorriso torcido começou a esboçar-se na minha boca.

– vai já para as lojas, tens aqui um exemplar.

Passou-mo para as mãos e olhou-me nos olhos com aquela cara efetivamente redonda e os dois olhos tinhosos ligeiramente desalinhados.

– parabéns – congratulou-me.

Era um livro airoso com uma capa espalhafatosa e um título pomposo escrito em letras gordas com serifas. Folheei o livro com orgulho enquanto o meu sorriso aumentava.

– vamos imprimir quinhentos mil nesta primeira edição e depois logo vemos como vai correr – assegurou-me.

Quinhentos mil livros escritos por mim, pensei. O meu talento começava a dar frutos. Era a minha vez.

– então e quanto é que vou ganhar? – perguntei.

– ganhar? rapaz, por agora não ganhas nada. O mercado está mau.

O talento exigia grandes sacrifícios, eu sabia disso.

– Escuta, tu tens talento e tens de acreditar em ti – elucidou-me – mas só vais conseguir receber depois desta crise passar.

Os meus olhos mostraram alguma resignação.

– Então e quando é que vou poder receber algo? – indaguei.

– Daqui a seis ou sete meses, talvez um ano… não te sei dizer miúdo.

Tornou a passar o dedo no bigode e começou a dar voltas aos vários papéis que se encontravam espalhados na secretária. Um silêncio imediato cobriu a sala. Apertei o livro com força e saí do escritório sem dizer mais uma palavra.

Um sol desmaiado foi-me companhando até chegar aos arredores da cidade. Pequenos montículos de relva brotavam do solo e cobriam grande parte do passeio já degradado. Um grupo de crianças surradas e desnutridas divertia-se com um sofá rasgado num entulho de cascalho e restos de lixo atravancavam as portas sem vidros dos indistintos blocos cinzentos. Tinha chegado a casa.

Subi até ao sétimo andar pelas escadas enquanto ouvia uma orquestra de gritos. Um negro corpulento descia apressadamente saltando degraus e uma cigana com duas crianças nuas ao colo fazia o caminho inverso, ultrapassando-me.

Cheguei finalmente a casa. Num sofá gasto e com marcas de cigarro estava a minha mãe. Fumava e bebia uma cerveja morna enquanto assistia a um programa sobre aspiradores de água. Da cozinha chegou-me um cheiro a lixo podre enquanto o gato cirandava pela sala. Como não me dirigia a palavra, acabei por revelar.

– Já tenho o meu livro editado mãe. Vão sair quinhentos exemplares para as lojas…

Um silêncio confrangedor foi terminado por uma tosse seca. Puxou pelo cigarro e disse secamente:

– Ai é? Bom para ti.

Na televisão anunciavam condições extremamente boas para um crédito até cinco mil euros. Ela voltou a puxar pelo cigarro e deu um pequeno gole na cerveja morna.

– Eles pagaram-te? – perguntou.

Um temor infundia as minhas palavras.

– Pois… ainda não… mas está para breve… mais tarde ou mais cedo…

A minha voz foi-se fragmentando até ficar em silêncio. Permaneci de pé com as mãos a transpirar e o livro na mão direita. Ela não tirava os olhos da televisão e o cigarro continuou a queimar até começarem a aparecer gotas de suor na minha testa.

– Quando é que te vais deixar de merdas? – disse-me – Preciso de dinheiro e tu andas a escrever livros! Onde está o meu cheque da segurança social?

Deixou de dar atenção à televisão e virou a cabeça na minha direção. Os olhos diluídos em fúria observaram-me de alto abaixo.

– Escuta aqui meu monte de merda, é bom que arranjes dinheiro. Trabalhei no duro para te criar e é assim que me pagas? A escrever livros?

Fixou os olhos nos meus. Levou a mão direita ao peito e num desabafo sorumbático disse-me:

– O teu pai que Deus o tenha, era um homem correto e justo. Se ele soubesse que andavas a escrever livros, dava-te uma tareia valente. Para aprenderes os teus deveres. Eu sou doente e já não te consigo dar uma tareia. Só queria que tivesses respeito pela tua mãe…

Virou-se para a televisão num choro fingido e apropriado. Aumentou o volume da televisão enquanto puxava uma longa e valente fumadela. O gato manteve-se estendido.
Fiquei mais uns minutos a ver aquele espetáculo deprimente enquanto continha um choro aflitivo. Depois fui até à cozinha e mandei o meu livro ao lixo. Uma pilha de louça suja com restos de comida estragada esperava por mim.

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