Convite

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Fui convidado a participar num evento de poesia. Daqueles onde se lê vagarosamente na penumbra em frente a uma plateia de professores com cachecóis de algodão e barbudos com óculos redondos sentados em mesas quadrangulares. Perguntei se lucrava alguma coisa e se havia comes e bebes. O meu cheque da segurança social ainda não tinha chegado e uma semana antes tinha-me despedido da mercearia. O nepalês com ar de monhé disse-me na cara que não tinha muito jeito para colar preços e que roubava demasiada cerveja. O que era absolutamente verdade, não tinha jeito nenhum para colar preços. Estive para o ameaçar com uma denúncia ao SEF se me despedisse mas decidi chamar-lhe bombista, chamuças e filho de um cão. Mais por orgulho e amor próprio do que para o magoar. Riu-se na minha cara e disse-me num português perfeito que eu era doente e preguiçoso e que ele nem sequer era muçulmano. O desplante. Fiquei enraivecido e disse-lhe que me despedia com orgulho e amor próprio. Ainda trouxe dois pacotes de arroz carolino e uma garrafa de vinho. Portanto, acabei por aceitar convite. Passei mais de trinta anos a fingir sensibilidade e não era por duas horas que não ia ter oportunidade de comer e beber à borla, afastado dos projetos sociais e dos percevejos a morderem-me os braços.

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