A minha filha

Vi a minha própria filha morrer. Os olhos a ficarem inanimados enquanto tentava estancar o sangue até o jorro perder o ímpeto e o rosto dela ganhar uma palidez mortiça. O contraste da pele pálida com o cabelo ruivo foi ganhando uma expressão triste enquanto dava os últimos gaguejos de vida.

Tinha 15 anos e era a filha mais linda que eu poderia ter. Dizia-me sempre que tinha umas sobrancelhas parecidas com as minhas. Era a minha princesa. Por vezes fecho os olhos e penso nos momentos em que riamos juntas. Eu tinha 29 anos. Tento não chorar quando me lembro, principalmente quando estou sozinha ou cansada. Tento adormecer sempre que fecho os olhos, mas não consigo esquecer a vida dela a fugir-me das mãos com a tristeza cravada nos olhos e acabo por acordar num sobressalto. Ainda a consigo imaginar a dormir na cama, serena e segura.

Foi o pai dela que construiu a cama. Era um homem habilidoso que trabalhava como carpinteiro. Construiu todos os móveis em casa e era ele que consertava tudo. Torneiras, parafusos, mesas… tudo. Era um bom homem. Costumava trabalhar para um senhor muito idoso numa oficina de carpintaria, mas o senhor morreu e o filho decidiu vender o negócio. A minha filha tinha acabado de nascer e o pai estava sem trabalho. Foram tempos difíceis. Para ele e para mim. O parto correu bem e sei que o pai a amava, conseguia ver na forma como ele a tratava e a fazia rir. Fomos conseguindo gerir tudo, com a ajuda de amigos e familiares. Mas ele começou a ficar mais desesperado, não lhe davam trabalho. Foram-se passando semanas, meses. Depois cortaram-nos a eletricidade. Em seguida foi a água e por fim o gás. Foi desesperante. Começou a encolerizar-se comigo, cada vez mais. Ficava dias sem aparecer em casa. Quando finalmente chegava, vinha num estado lastimoso, rasgado e com marcas de luta. Das primeiras vezes os amigos traziam-no até à porta de casa e ajudavam-me a levá-lo para a cama, depois e mais recorrentemente largavam-no simplesmente na rua.

Certa vez eu estava na cozinha a aquecer um pouco de leite enquanto a minha filha dormia no quarto. Apercebi-me de um ruído esquisito nas escadas. Existiam muitos viciados no prédio e alguns tinham o hábito de chutarem nas escadas e deixar as seringas usadas espalhadas pelo chão juntamente com as colheres. Era comum ouvir alguém a queixar-se com aquilo tudo espalhado. Continuei na cozinha até que a minha filha começou a chorar. Achei que teria fome, pois as refeições eram poucas e tudo o que tinha era em pequenas doses. Apressei-me e dirigi-me ao quarto, apercebendo-me que afinal os ruídos não vinham da rua, mas do quarto. Aproximei-me com cautela e ouvi o pai da minha filha a sussurrar. Porque estaria a sussurrar? Não me tinha apercebido que ele já estava em casa. Quando teria chegado? Ele continuava a sussurrar, mas eu não conseguia perceber. Decidi-me e entrei no quarto. No escuro consegui perceber que ele estava em cima da minha filha com as calças no chão.

O meu pai costumava dizer-me que todas as mulheres eram de uma maneira ou de outra, umas putas. Era um homem rigoroso de pouco humor e com um carácter penitente. Era louco pela Igreja e costumava levar-me juntamente com ele todos os domingos. Raramente me levava ao parque e quando levava, ficava muito hirsuto a olhar para mim, enquanto eu brincava. Não deixava que outras meninas brincassem comigo, principalmente meninos. Dizia-me sempre que eu tinha de ser uma menina bonita e aplicada, em casa, não na escola. Foi ficando cada vez mais obcecado pela a Igreja e começou a chamar-me puta, simplesmente porque os meninos queriam brincar comigo. Quando descobriu que eu tinha um namorado deu-me uma tareia até eu perder os sentidos. Semanas depois descobri que estava grávida e foi quando fugi de casa.
Conheci o pai da minha filha nessa noite enquanto caminhava perdida sem destino. Ele reparou em mim e perguntou-me o que fazia uma rapariga tão bonita perdida na rua a uma hora daquelas. O sorriso dele fez-me sentir uma confiança instantânea. Não era nada como o meu pai, prudente e sério. Caminhou ao meu lado até lhe contar que tinha fugido de casa. Corajosamente ofereceu-se para levar-me a casa, mas pedi-lhe que não o fizesse. Não podia voltar para casa, estava grávida. Tinha passado os últimos meses a levar sovas, porque tinha um namorado, não queria imaginar o que seria quando o bebé nascesse.

O pai da minha filha tinha uma casa nova numa habitação social. Era uma casa linda e espaçosa. Tinha dois quartos e uma sala muito grande com uma janela alta. A cozinha era larga e branca com muita luminosidade. Era mesmo um sonho. Lembro-me da felicidade e da segurança que o sorriso dele me transmitia. Os dois juntos no nosso lar. Ele arranjou o trabalho na carpintaria e eu fazia a lida da casa. Limpava o chão e cozinhava. Era feliz. Até que um dia senti umas dores horríveis e tive de agarrar-me à mesa corrida que tínhamos na cozinha. Não aguentava estar de pé, tive de sentar-me. Era o bebé. Não tinha ninguém para me ajudar, portanto tentei levantar-me, mas não conseguia. Fiz o que conseguia fazer, forçar. E forcei com tudo o que tinha, até sentir uma dor violenta na cabeça que se espalhou imediatamente pelo corpo todo. Fiquei alguns segundos quieta até ganhar fôlego e conseguir respirar normalmente. Transpirava intensamente com as palpitações a martelarem-me o peito. Senti um suave formigueiro acalorado no meio das pernas. No chão já estavam espalhadas pequenas gotas de um sangue muito escuro. Quando tentei apalpar o formigueiro, senti qualquer coisa. Engoli em seco. O coração estava prestes a fugir-me do peito enquanto eu tremia e sentia uma ansiedade aguda misturada medo e desespero. Voltei a tocar no que me pareceu ser um pequeno dedo e puxei. Senti um frémito de pânico a percorrer-me o corpo e olhei incrédula para o que tinha na mão. Um pequeno pedaço de carne em forma de pé. E desmaiei.

Não quero pensar nisso, porque sinto vontade de chorar. O pai da minha filha trabalhava muitas horas por dia e encontrou-me estendida no chão. Ficou imediatamente em pânico. Não sabíamos o que fazer. A dor era menos intensa, mas intermitente. Lembrei-me de algo. Instintivamente pedi-lhe para ajudar-me a ir até à casa de banho e encher a banheira de água. Meti-me a custo dentro da banheira e não precisei de fazer muita força. Pedaços de carne indistintos começavam a boiar na água. Foram-se juntando mais alguns pedaços à medida que eu fazia força, outros simplesmente iam ao fundo. A água ia escurecendo num tom sujo. Por fim pedi-lhe que fosse buscar um saco escuro. Não pensei nisto naquela altura, mas devia ter percebido o porquê das sovas do meu pai. Com uma repulsa que não consigo descrever, fui enfiando os pedaços que saiam dentro de mim no saco. Depois pedi ao pai da minha filha para dar um nó ao atilho e largá-lo no lixo.

Mas já temos mais dois móveis e a cozinha voltou a ganhar uma brancura como antes. O pai da minha filha já não bebe e conseguiu arranjar um trabalho fixo. Ganha até mais que na carpintaria e trabalha menos horas. Fica com mais tempo para mim. Agora que eu tratei de tudo, as coisas vão ser como antes. Vou cozinhar e limpar a casa, para quando o pai da minha filha chegar do trabalho ficar orgulhoso. Eu sei que ele fodia a minha filha, era isso que ele fazia. Foi-se tornando insuportável ouvi-lo gemer e a olhar-me com censura, como um objeto esquecido e obsoleto. Tratei de tudo. Numa noite depois de ele a ter fodido, saiu para beber. Preparei o pouco que tinha para o jantar da minha filha e deixei que ela comesse tudo e se fosse deitar. Depois de adormecer profundamente peguei numa faca e cortei-lhe o pescoço. Fiz quatro cortes e não precisei de mais. Fiquei a vê-la enquanto lutava pela vida e o sangue lhe escorria pelo corpo abaixo como uma mancha a alastrar, mais e mais. Foi tentando estancar o sangue e com uma voz rouca e incapaz tentou perguntar o porquê, o porquê de eu a matar. Fixei os meus olhos nos dela e disse-lhe do fundo do meu coração que era uma puta.

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