Liberdade

Estávamos a jogar ao rami. Eu, o bigodes e o fintas, que já levava um avanço considerável. Tinha o triplo das minhas fichas e eu tinha o dobro das fichas do fintas. Jogávamos pacatamente numa sala de 4 metros quadrados com um piso irregular, da parede pendiam quadros bolorentos do benfica. As janelas encontravam-se totalmente abertas, para o ar poder circular. No entanto, como era verão, a nuvem de fumo em cima de nós teimava em não se mover. Da rua chegava um ruído sereno e quente.

E sem mais nem menos, rebentam com a porta. Não tive tempo de reagir, aliás, ninguém teve.

– TUDO QUIETO! MÃOS NO AR!

Cinco polícias encorpados entraram de rompante com as pistolas na mão, prontas a disparar.

– TU DE OCULINHOS, MÃOS EM CIMA DA MESA, JÁ! – gritou-me um deles.
– MAS QUE VEM A SER ISTO? – perguntou o bigodes.
– O QUE ACHAS QUE ISTO É SHERLOCK? ESTÃO PRESOS! – ripostou o mais matulão.

Só podia ser engano, pensei. Costumava acontecer, às vezes dava na televisão, negros baleados por engano. Suponho que também entrem em casa das pessoas por engano, podia ser possível.

– MAS SENHORES AGENTES, ISTO PROVAVELMENTE É UM ENGANO…
– NÃO É ENGANO NENHUM, ESTÃO TODOS PRESOS! TUDO A LEVANTAR O CU DESSAS CADEIRAS E DEVAGARINHO! SENÃO AQUI O ESTEVES ENCHE O VOSSO COURO DE CHUMBO!

Não era engano. Estávamos mesmo a ser presos. O bigodes ainda estava incrédulo, quando o fintas decide escapulir-se por uma das janelas. Um dos polícias, talvez o mais novo e na ânsia de mostrar serviço, consegue caçá-lo. Puxou-o de tal forma com aquelas unhas autoritárias que o corpo do fintas deu um safanão seguido de um som seco. Mas não se limitou a agarrá-lo e a puxá-lo, dois dos gorilas da justiça saltaram imediatamente para cima do coitado.

– JÁ CHEGA! NÃO ACHAM? – gritou-lhes o bigodes.

E pumba. O capitão ou o comandante, nunca percebi, deu-lhe um valente soco no estômago. O bigodes encolheu-se como um bicho da conta.  Olharam imediatamente para mim à espera de eu fazer alguma idiotice para malharem o meu couro. Mas não lhes dei esse prazer e lancei ambas as mãos para a frente, a pedir as algemas.

Acabaram por nos enfiar aos três na parte de trás de um carro patrulha ao mesmo tempo que as primeiras cabeças curiosas surgiam nas janelas. Arrancaram com as sirenes ligadas e dirigiram-se em alta velocidade até às cercanias da cidade. A esquadra situava-se numa rua de habitações térreas com árvores recentemente plantadas.

– TOCA A ANDAR! O SUPERINTENDENTE QUER FALAR COM OS SENHORES! – vociferou o chefe da matilha.

Saímos do carro e entrámos naquilo que parecia ser uma super esquadra moderna. A recepção estava impecavelmente limpa, com uma fileira de bancos espaçosos alinhada à esquerda e do lado direito uma parede repleta de quadros com condecorações e generais agraciados, como as linhagens da monarquia. Em frente encontrava-se a secretaria com uma janela de vidro repleta de anúncios de cães perdidos e quartos para alugar. Atrás do vidro um agente modorrento virava calmamente a página de uma revista. Os gorilões cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e levaram-nos até uma sala mal iluminada com uma mesinha de ferro no centro, como nos filmes. Depois saíram sem dizer nada e deixaram-nos à espera. Ficámos em silêncio a olhar uns para os outros, naquela sala minúscula e opressiva. Passaram-se alguns minutos até que finalmente entrou um polícia de ar muito respeitoso com a farda impecavelmente engomada. Não trazia pistola e todo ele transpirava burocracia.

– MUITO BEM! OS SENHORES SABEM PORQUE ESTÃO PRESOS? – perguntou.

Olhámos uns para os outros. Ninguém sabia ou se alguém sabia, mentia perfeitamente.

– POIS BEM! OS SENHORES ESTAVAM OS TRÊS A CONSPIRAR CONTRA O GOVERNO – revelou.

O bigodes largou um risinho escarnecedor enquanto eu e o fintas recuperávamos do pasmo.

– OS TRÊS PRETENDIAM DERRUBAR O GOVERNO DE PORTUGAL – prosseguiu – DE FORMA QUE É UM DOS CRIMES MAIS GRAVES EXPLANADO NO ARTIGO 123º DA NOVA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA.

O bigodes deixou de rir. O superintendente rocha não se estava a rir. A placa de identificação estava ajeitada num ângulo perfeito. Olhou para nós e terminou a frase:

– PORTANTO E COMO MANDA A LEI ISTO É UM JULGAMENTO SUMÁRIO. DEZ ANOS DE PRISÃO PARA OS TRANSGRESSORES COM EFEITO IMEDIATO.

Ficámos os três boquiabertos com o ar mais perplexo que alguma vez poderíamos ter. Até que o fintas rebentou num pranto. Eu continuava pasmado e começava a sentir ligeiras tonturas enquanto o bigodes se sentava resignado na cadeira. Era o mais velho dos três e tinha passado pela ditadura, sabia como eram estas coisas.

Ninguém pensou em perguntar por um advogado ou uma muda de roupa. Permanecemos os três num silêncio sepulcral até sermos levados para outra sala, acompanhados por um polícia agressivo de cara rubicunda com uns braços gordos de aspeto flácido. Mandou-nos despir e ficámos de costas para a parede até sermos surpreendidos por um fortíssimo jacto de água. A lei podia ser cega mas sem dúvida que continuava a primar pela limpeza.

Deram-nos três fardas azuladas e indicaram-nos o caminho até uma cela rectangular com uma sanita e o que parecia ser uma cama sem colchão. Uma pequena janela gradeada deixava entrar os primeiros raios do nascer do sol e no chão já se começavam a distinguir as sombras das barras cruzadas em ponto de fuga. Ficámos a ver o polícia a afastar-se depois de trancar a nossa cela e deixámos que alguns minutos se passassem. Quando deixámos de ouvir passos e portas a bater, o fintas dirigiu-se rapidamente à sanita e meteu a mão no buraco. Retirou um invólucro de plástico com uma chave no interior. O bigodes olhou para mim e eu olhei para o fintas. A chave servia na perfeição e ouvimos pacientemente as linguetas a retrair. Em frente à nossa cela existam outras, todas vazias. Com uma frieza calculada o bigodes guiou-nos até uma outra sala com cinco armários grandes. Nenhum deles tinha cadeado. Abriu o primeiro e lá dentro encontrava-se um verdadeiro arsenal: pistolas, caçadeiras e cassetetes. Sorrimos radiantes e fomos passando as armas uns aos outros. O plano estava em curso e a primeira fase para derrubarmos o governo estava completa.

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