O prémio

O Américo vivia no quinto andar de um prédio quase inabitado da rua José Falcão em arroios. Era um prédio discreto igual a tantos outros dessa rua, com poucos inquilinos e publicidade entupida nas caixas de correio. Não tinha sido um bom ano para o Américo. A mulher falecera em meados da primavera, vítima de uma trombose e o pequeno cão, única companhia, também já não se encontrava vivo. Tinha sido um ano penoso do ponto de vista emocional, mas apesar de tudo conseguia aguentar-se e mantinha os mesmos hábitos, sobretudo não fazer amigos. Não é que não gostasse, mas não via interesse concreto em ter amigos ou pelo menos fazer novos amigos. A vida ensinara-lhe uma valente lição: tudo acabava. A vida, a mulher, os animais, a amizade, o dinheiro e o gás. Principalmente quando estava a meio de um banho. Mas não se sentia deprimido nem afastado, pelo contrário, fazia convergir a vida, o que restava da amizade, a família e tudo o resto para um objetivo. Um prémio. Para sermos rigorosos: jogava sempre para os 5 números mais 2 estrelas.

Numa sexta-feira em meados de dezembro com o céu coberto de nuvens e a cidade pouco agitada, o Américo assistia ofegantemente ao sorteio em direto na televisão com o boletim na mão esquerda e um copo de água meio cheio na mão direita. Na televisão, uma mulher com uma saia muito justa mantinha-se junto a uma esfera com vários anéis a girar enquanto dezenas de bolas saltavam desordeiramente no interior. Um momento em suspenso após um zoom com uma bola aleatória selecionada pelo zingarelho que finalmente acabava por revelar um número 11. O processo repetiu-se mais duas vezes. Um 22 e depois um 44. Foi nesse momento que o Américo sofregamente bebeu um valente copo de água e passou as mãos nos olhos de modo a desobstruir qualquer coisa que o impedisse de ver o que estava a ver. Continuava a ver claramente os três números no boletim. Foi selecionado um quarto número, o 33. O Américo reparou então que tinha uma estrela imediatamente abaixo da segunda caixa dos números no boletim. Exprimiu um grito menos alto do que esperava e arregalou os olhos com as sobrancelhas grossas a formarem um arco na testa rugosa. Já tinha chegado mais longe do que nunca. E então uma quinta bola desceu do zingarelho. Era um simpático 50. Deu imediatamente um pequeno pulo na cadeira e agarrou o boletim com ambas as mãos, como se fosse a fugir-lhe. Ouvira bem. Um 11, 22, 44, 33, 50 e uma estrela. Era isso. Os olhos mais abertos que nunca percorreram com cautela todos os números assinalados no boletim; 11, 22, 44, 33, 50 e…   uma estrela. Cinco números, uma estrela. Levantou-se de súbito com o coração a exceder os batimentos normais. Preparava-se para gritar, quando foi atraiçoado. Sentiu um aperto agudo do lado esquerdo do peito e não teve tempo de tentar perceber se era acima do coração, abaixo ou ao lado. Era o próprio coração a rebentar numa desleal apoteose. No momento seguinte tombou em cima da mesa derrubando o copo de água quase vazio, acabando por deslizar até ao chão. Na televisão a senhora da saia justa e com uns saltos muito altos sorria para o mundo com uns dentes alinhadamente brancos. Um coro de palmas fez-se ouvir em estúdio durante breves segundos. A câmara foi-se afastando do zingarelho e depois da senhora, enquanto as palmas esmoreciam no momento seguinte. Alguém tinha ganho um prémio.

 

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