O amor da Vânia

A Vânia saiu do trabalho à hora certa e apanhou o metro para a alta de lisboa. Tinha planeado tudo a semana passada para celebrar os doze anos de casada no dia dos namorados. Casou-se a 14 de fevereiro sob um sol morno numa festa animada, com uma mesa longa repleta de bolos e familiares a comer mousse instantânea. Ria-se por dentro sempre que pensava nesse dia e era assim que se animava nos dias mais tristes e solitários; a família em júbilo a aplaudir, tios, primos, primas e até a avó, que não gostava do marido. Com uma mesa farta e a família reunida em cima de uma ponte minúscula com uma água tépida a fingir-se azul, para uma fotografia eterna.

Deu por si a rir-se no metropolitano de lisboa enquanto um indiano com ar depravado a fitava na tentativa de perceber o motivo. Ela dirigiu-se para a outra extremidade da carruagem, apesar de ser sexta-feira e quase hora de ponta esta encontrava-se relativamente vazia.

Saiu no lumiar e contornou a fileira de edifícios espelhados até chegar à zona de comércio com farmácias e papelarias. Morava num sétimo andar e depois de ter optado pelas escadas tomou um relaxante e demorado banho. Secou o cabelo, pintou os olhos e escolheu um batom vermelho sanguíneo. A seguir vestiu umas meias de liga muito finas com uma saia curta, discreta mas apelativa. Tinha um corpo atlético e a saia destacava-lhe o rabo com uma anca incrivelmente fina, o marido ia adorar. Perfumou-se e dirigiu-se à cozinha para beber um copo de água, serenamente. Olhou para o relógio para confirmar a hora. Pegou na mala e colocou a carteira, o totoloto e um molho de chaves lá dentro. Calçou uns sapatos de salto alto e saiu de casa. Desta vez utilizou o elevador e cruzou-se com a velhota do terceiro esquerdo. Uma senhora respeitosa e simpática, disse-lhe boa tarde. Saiu do edifício e percorreu o caminho inverso até ao metropolitano, contornou a estação e seguiu em frente até aos edifícios sociais da câmara. Caminhou decididamente até chegar à primeira porta e entrou. Um cheiro adocicado a roupa suja pairava no ar. Subiu até ao terceiro andar de elevador e caminhou pelo corredor com os saltos a ecoar. Chegou à última porta e parou. Lançou primeiro um olhar por cima do ombro e a seguir retirou um molho de chaves da pequena mala. Meteu a chave à porta e entrou. Dirigiu-se à cozinha e pousou a mala. Encheu um copo de água e foi até à última divisão. Bateu à porta, ninguém respondeu. Entrou. No centro do quarto encontrava-se uma cama com um colchão: o marido estava em cima do colchão, acorrentado à cabeceira. Estava despido com exceção das meias. Acordou num sobressalto assim que ela contornou a cama. Abriu muito os olhos e agitou-se, fazendo com que a ferida do sobrolho esquerdo abrisse novamente. Tinha marcas muitos profundas de saltos de sapato ao longo do peito e das virilhas enquanto que os testículos estavam apertados com uma braçadeira de eletricista. Ela chegou perto dele e ele agitou-se ainda mais, não conseguia falar, estava amordaçado. Ela olhou para ele e disse-lhe que tinham de tratar daquela ferida, podia infetar. Pousou o copo na cabeceira e ele arregalou mais os olhos, tentou estremecer. Ela despiu as cuecas e deixou-as cair no chão. De seguida abriu os braços e disse-lhe alegremente: fazemos 12 anos de casados, vamos ter uma noite especial! O corpo dele foi sacudido por um arrepio de medo e misericórdia. Agitou-se, agitou-se. Em vão. Ela já estava a montá-lo.

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