ele que…

o Fábio tinha uma filha de 5 anos. ele que sempre quisera ter uma filha, mas não a vira nascer. gostava muito dela e continuava a ter quatro meses de renda em atraso.

– papá, quero! – disse a filha enquanto apontava para uma máquina cheia de bolas de plástico.

– o papá já dá.

e pediu um café ao balcão enquanto observava o cu da preta. era jeitosa e não tinha sotaque. o Fábio não gostava de pretas com sotaque nem daquelas brasileiras gordalhonas. Nem dadas, dizia sempre.

– vamos lá meu amor, tirar essa bola – enquanto passava uma moeda de 50 cêntimos à filha.

a filha inseriu a moeda e girou o trinco. Uma bola de plástico muito feia veio ter-lhe às mãos que já estavam em concha e um sorriso largo surgiu-lhe no rosto.

– vês meu amor, ganhaste. boa!

– mas papá, ganhei o quê?

– ganhaste o jogo. tens o prémio.

A filha não pareceu acreditar na vitória mas não perdeu tempo. abriu a bola e no interior estava um boneco muito feio feito de plástico chinês.

– olha és tu papá – enquanto lhe apontava o boneco.

– pois sou.

– só falta a mamã e o avô

– fica para quando cá viermos. da próxima tiras a mamã e o avô está bem?

Saíram da cafetaria e caminharam ao longo do passeio. estava um sol agradável e o Fábio cruzou a estrada a poucos metros da passadeira. dificilmente cumpria a sinalização.

– papá, gostas da mamã?

– gosto. o papá ama muito a mamã.

– e o avô?

– também.

– mas estás sempre a gritar com ele e ele grita contigo. porquê?

– porque gostamos muito um do outro.

– o que é um cabrão?

– um cabrão? é o avô. o avô é um cabrão.

o Fábio percorreu a fileira de prédios com grandes manchas de humidade e pequenas bandeiras de portugal hasteadas nas janelas. entrou no último.

– mamã – gritou a filha -, olha o papá! o papá amanhã vai comprar a mamã e o avô.

– que bom – disse a mãe, virando-se para o Fábio. – o sal e o leite?

– caraças! esqueci-me, meti-me à conversa com o rui e passou-me. tive de emprestar-lhe 10 pintores, o pai dele está mesmo mal. queres que volte para ir comprar?

– emprestaste-lhe 10 pintores? estamos à rasca e tu emprestas os 10 euros que eram para o leite da tua filha. caramba! os teus amigos dormem contigo e lavam-te a roupa?

– porra! já te disse que ajudo os amigos. não sabes o que é estar preso e só conversares com o parceiro de cela, durante cinco anos! Também me ajudaram…

– irra! ajudaram. sempre a mesma conversa! – gritou a mãe. – entalaram-te e quem te foi ver à prisão? eles? eu que estava de cinco meses é que te ia dar apoio. Nem um dos teus grandes amigos falou comigo.

– ehhh. lá estás tu, sabes que eles não se podem comprometer. foda-se! e que fizeste tu enquanto estive preso? procuraste trabalho? estiveste de cú sentado a ver a merda das novelas e ao telefone com as vacas das tuas amigas?

– a miúda está a ouvir, Fábio.

– boa! e digo mais, as tuas amigas é que são as melhores. fodem tudo o que anda. passam o dia todo na porra do café a limar as unhas com a merda dos putos ranhosos a gritar e a correr para a estrada. e à noite vão para as festas foder com pretos.

– olha – disse a mãe – acaba lá com essa conversa. temos um litro de leite até eu receber da segurança social. e sabes que a minha mãe não me fala.

– há quanto tempo ando a ouvir isso? cuidaste da velha quando ela esteve no hospital e agora ela não te pode emprestar dinheiro? que porra de família que nem falam aos seus.

– não me fala porque ainda estou contigo e foste um pai ausente e porque foste um idiota. caramba: eu ainda te amo, a sério.

Ele cansou-se.

– pronto, está bem. então arranja-me qualquer coisa para eu comer antes de ir ter com o pires.

o Fábio tirou o comando da mão do pai que estava sentado num cadeirão com um fio de oxigénio ligado a uma máquina que fazia um ruído muito esquisito.

– eh. então – disse o pai.

– ‘tão o quê? aquilo era uma merda. vamos ver a bola.

– não quero ver bola.

– não tens de querer, ficas calado. ficas o dia todo de cú sentado a ver esta porra.

o pai resignou-se.

– Fábio, olha as asneiras – disse a mãe da cozinha. a miúda está a ouvir. queres que ela cresça como tu?

– quero que ela não seja como a mãe! – respondeu o Fábio.

a filha brincava no chão. a mãe trouxe um prato com atum e milho.

– então e já falaste com a segurança social? – o Fábio perguntou ao pai.

– já. a mulher vem cá para a semana. preciso trocar os papéis.

– então não te esqueças de dizer à gaja que isto não são condições para ti. precisas desse complemento para a reforma. pensa na tua neta.

a mãe voltou à cozinha. a filha brincava no chão e o Fábio falava com a boca cheia enquanto o pai dizia que sim. terminou de comer, limpou as mãos às calças e saiu de fininho.
a mãe saiu da cozinha.

– o teu homem foi-se embora – disse o avô.

– eu sei.

a mãe pegou na filha e meteu-a no colo.

– Sabes o que a mãe preparou?

– o quê?

– uma coisa boa. Uma omolete!

a filha fez uma cara de repugnância. era um hábito, a omolete. enquanto isso, o Fábio estava na esquina do prédio à entrada do bairro a observar atentamente os carros que entravam pela direita na estrada principal. era páscoa e o consumo às terças-feiras esmorecia sempre. precisava do leite para a miúda. tinha mesmo de ser. passaram horas e o Fábio não estava de bom humor. ninguém. nenhuma venda, foda-se. puta da páscoa. lixou-lhe os planos. e a noite de sábado também não foi boa. torrou o dinheiro todo nas mulas. mamavam mais que ele. as gajas hoje em dia bebem, cheiram e fodem mais que os homens. não há volta a dar. O mundo está de pernas para o dar.

enquanto isso a mãe aconchegava a filha na cama e o avô roncava com a televisão ligada. da rua chegavam sussurros de sirenes e alguns cães a ladrar.

 

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