assim que…

Rego não esperou pelo elevador. Apesar de já se encontrar em funcionamento, desceu as escadas rapidamente sem a luz de presença acesa. Bateu com a porta e dirigiu-se em passo rápido ao “rebocho” na esquina do décimo prédio. Uma espécie de café, misto de conversas cruzadas e segunda casa para muitos. Como sempre não pediu o que queria e subitamente já tragava a primeira cerveja do dia enquanto gritava ao companheiro da frente se tinha lume. O companheiro não tinha lume, mas tinha sérios problemas nos dentes superiores e isso não parecia incomodar ninguém. Rego voltou a pedir lume a ninguém em concreto. Alguém tinha lume. O primeiro cigarro já estava no fim quando pensou na mulher. Não devia ter deixado o dinheiro em cima da mesa. Podia ter-lhe batido e guardado o dinheiro e só por isso estava arrependido. Ou podia só ter-lhe batido e nem sequer falar em dinheiro. Ela merecia. Ele esforçava-se. Ele era simpático para ela e dava-lhe atenção. Além disso não a enganava. Há mais de três meses que não o metia noutra. Só por isso ela devia estar agradecida. Gorda como ela estava, era o que ela merecia, e bem. Ela que fosse ganhar o sustento. Ele estava farto de arcar com as despesas, os vícios dela, a merda dos jogos para o puto e a porra dos medicamentos para o aleijado do pai. Ela julgava que ele tinha bolsos do tamanho do mundo. Isso enfurecia-o. Já quase não tinha dinheiro para pagar rodadas aos companheiros e não ia à bola há meses. Apesar de vender uma média de 5 doses diárias de heroína, ainda tirava por fora uns contos de pólen. O que juntou o ano passado, foi-se nestes últimos três meses. Tudo na gorda no puto e na merda do pai. E nos copos. Foda-se. Tinha de vender mais ou cortar na despesa. Mas deixar a gorda era complicado. Apesar de tudo ela aturava-lhe as merdas e aceitava esconder-lhe a droga. Mesmo com o miúdo a perguntar o que estava nos sacos brancos. Ela não se importava com o que ele fazia. Incentivava até. E quando ele precisava de ir a Espanha, ela ficava fina em casa a arrumar as merdas e a tomar conta do puto. E ele sabia disso. Ela sempre esteve presente, mas fodia-lhe o juízo. Ele fervia em pouca água. Mas quando o cigarro deu de si, já ele pensava noutra coisa. Este género de coisas dava-lhe azia. Pediu mais uma e fumou mais um cigarro. Nada mudou no rebocho enquanto ele fumava e bebia. Não encheu, nem esvaziou. Continuou igual, cerveja atrás de cerveja, cigarro atrás de cigarro, conversa atrás de conversa. Sempre o mesmo, dia após dia. Venda após venda. Até chegar a vez dele. Depor sob juramento, afirmar que a droga é para consumo, cumprir pena, voltar ao mesmo. Não aguentar mais, dar um último golpe e sair dessa vida. Não voltar a entrar no rebocho. Deixar de ter problemas com o dinheiro. Beber um sumo à beira da praia e cuidar da saúde. Entretanto o rebocho esvaziou. Dois ou três gatos pingados esperavam pela sopa do jantar em mesas perdidas naquele espaço exíguo. Deu-lhe a fome. Achou que estava na altura de regressar a casa e ver o que a gorda tinha feito para jantar. Talvez tivesse acalmado e o deixasse ver a bola descansado.

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